Considerações sobre as Evoluções Tecnológicas na Medicina – Dr. Romero Fenilli

Terça-feira, 07 de Julho, 2026

Em um artigo anterior, escrevi sobre a evolução da cirurgia, desde seus primórdios, marcados por procedimentos rudimentares, até a atualidade, em que robôs atuam como importantes auxiliares na realização de cirurgias cada vez mais complexas.

Recentemente, tive a oportunidade de participar do Congresso da Sociedade Europeia de Cirurgia Torácica, onde parte das discussões esteve centrada justamente nas novas tecnologias aplicadas à medicina. A primeira conclusão a que se chega é que a velocidade dessas inovações, muitas vezes, supera nossa capacidade de acompanhá-las.

Quem acompanha minhas publicações no Instagram certamente viu algumas postagens sobre o congresso. A cada dia surgem novidades impressionantes: inteligência artificial aplicada à prática médica, plataformas robóticas que, além da visão tridimensional, já oferecem percepção tátil parcial, broncoscopias robóticas e inúmeras outras tecnologias desenvolvidas para tornar os procedimentos mais precisos, seguros e eficientes.

Para se ter uma ideia, a inteligência artificial avança rapidamente na medicina. Seu uso já se estende desde a rotina dos consultórios — otimizando o tempo de atendimento e produzindo registros clínicos cada vez mais claros e completos — até sofisticados sistemas capazes de analisar grandes volumes de dados para auxiliar no diagnóstico e na tomada de decisões clínicas.

O tema tem despertado intensos debates em todo o mundo. Recentemente, Elon Musk afirmou acreditar que, em breve, as futuras cirurgias serão realizadas exclusivamente por robôs. Utopia? Talvez nem tanto. Já existem robôs dotados de inteligência artificial executando, de forma experimental, procedimentos cirúrgicos com elevado grau de autonomia.

Lembro-me de quando era jovem e assistia às séries de ficção científica nas quais as pessoas utilizavam comunicadores capazes de transmitir voz e imagem em tempo real. Na época, aquilo parecia impossível. Hoje, conversamos por vídeo instantaneamente com qualquer pessoa conectada à internet, em qualquer lugar do planeta. O que antes parecia ficção tornou-se parte da rotina. Não seria surpreendente que a previsão de Musk também venha a se concretizar.

No congresso, as discussões sobre inteligência artificial abordaram tanto seus benefícios quanto suas limitações. Para alguns, seus algoritmos parecem praticamente infalíveis; para outros, ainda apresentam falhas importantes, sobretudo quando aplicados a situações clínicas complexas e que exigem julgamento humano.

Como devemos avaliar essa transformação? Qual será o futuro da medicina? E, mais do que isso, qual será o futuro da nossa sociedade diante dessas mudanças?

Sempre que uma nova tecnologia é apresentada, dois argumentos costumam aparecer em destaque: aumento da segurança e redução do tempo dos procedimentos.

A segurança do paciente seria ampliada por sistemas capazes de processar milhões de informações em poucos segundos, alcançando uma precisão diagnóstica comparável à de profissionais extremamente experientes. Ao mesmo tempo, haveria maior segurança para o médico, uma vez que todas as informações utilizadas na construção do diagnóstico ficariam sistematicamente registradas, demonstrando que todas as etapas necessárias para uma adequada investigação clínica foram cumpridas.

O segundo aspecto é o tempo — talvez o recurso mais valioso que possuímos. O tempo perdido jamais pode ser recuperado. A promessa é de consultas mais rápidas e processos mais eficientes. Mas surge uma pergunta inevitável: o que acontecerá com a conversa? Com o olhar atento? Com a relação de confiança construída entre médico e paciente?

Muitas vezes, o paciente procura muito mais do que um diagnóstico. Busca acolhimento, orientação, conforto e esperança. O consultório pode transformar-se em um espaço de escuta, quase um confessionário moderno, onde medos são compartilhados e forças são renovadas para enfrentar o tratamento. Essa dimensão humana dificilmente poderá ser reproduzida por qualquer algoritmo.

Acredito que a inteligência artificial e os equipamentos cada vez mais sofisticados contribuirão significativamente para uma medicina melhor, mais precisa e mais segura. No entanto, também acredito que jamais substituirão completamente o médico em quem o paciente deposita sua confiança, alguém capaz de interpretar não apenas exames, mas também emoções, angústias e expectativas.

A medicina evoluiu extraordinariamente e continuará evoluindo. Felizmente. Caso contrário, ainda realizaríamos cirurgias sem anestesia ou, pior, abriríamos um abdome sem sequer compreender a doença que motivou o procedimento.

Por fim, deixo uma última reflexão: quem realmente está sendo beneficiado pelo avanço tecnológico?

A incorporação dessas inovações exige investimentos extremamente elevados, o que limita significativamente seu acesso. É verdade que toda tecnologia passa por um período de amadurecimento. Há pouco mais de um século, os aparelhos de raios X eram experimentais; hoje são equipamentos portáteis e amplamente disponíveis. Provavelmente ocorrerá o mesmo com as tecnologias atuais.

Entretanto, o acesso a essas tecnologias modernas, ainda não é a realidade de grande parte da população. Muitos dos protocolos diagnósticos e terapêuticos discutidos nos grandes congressos internacionais permanecem distantes dos pacientes que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde.

Um exemplo é a broncoscopia robótica. Trata-se de uma tecnologia extremamente precisa e eficiente, mas cujo equipamento custa aproximadamente um milhão de dólares, sem considerar os elevados custos dos insumos necessários para seu funcionamento. Atualmente, esses sistemas começam a ser incorporados em alguns países europeus; até pouco tempo atrás, estavam disponíveis praticamente apenas nos Estados Unidos, onde se localiza a empresa fabricante. A expectativa é que cheguem ao Brasil apenas entre 2028 e 2029.

Como afirmei no início deste texto, aquilo que hoje parece utopia provavelmente será uma realidade em um futuro não tão distante e, com o tempo, tornar-se-á acessível a um número cada vez maior de pessoas. Até lá, porém, não podemos perder de vista nossa realidade atual. O verdadeiro desafio continua sendo oferecer o melhor cuidado possível aos pacientes que hoje dependem de nossa atenção, utilizando, com responsabilidade e humanidade, os recursos que já temos à disposição.